domingo, 27 de abril de 2014

Abandono planejado: conheça a história do Parque das Hortênsias


Zoológico em Taboão da Serra sofre com abandono e descaso

Por Equipe Fórum Comunitário*




O Parque das Hortênsias, localizado na cidade de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo (17 km do centro da capital paulista), é um dos principais centros de lazer na cidade, com muito verde e várias espécies da fauna brasileira. Faz parte dos, aproximadamente, 35 zoológicos em todo o estado, de acordo com a Sociedade Paulista de Zoológicos – SPZ. O parque vem sofrendo muitas dificuldades, sendo alvo de críticas e denúncias de abandono, e maus-tratos aos animais.

Fundado em 14 de fevereiro de 1978, pelo o então prefeito Armando Andrade, o parque, com 48 mil m² de área, nasceu sob muita desconfiança por parte da população. Próximo à sede da Prefeitura Municipal, na Praça Miguel Ortega, o local tinha uma topografia acidentada e praticamente abandonada, servindo como depósito de lixo e cocheira por um morador que vivia nas proximidades.

Durante a construção, a equipe de obras e engenharia da Prefeitura realizou a terraplanagem e limpeza para a construção de alamedas, sarjetas, sanitários, muros de fecho. Ao mesmo tempo, foram projetados pelos engenheiros os ambientes internos para os animais que chegariam ao parque, um lago, um pórtico de entrada e espaços para o caseiro e para a administração. Foram plantadas mais de mil mudas de árvores e cinco mil mudas de hortênsias, vindas das Serras Gaúchas, que acabou originando o nome do parque.

Os anos passaram e o parque parece que foi deixado de lado. As três últimas gestões do município não deram muita atenção para as necessidades do local, se tornando alvo de inúmeras denúncias de abandono, má conservação em jaulas, alamedas e maus-tratos aos animais. Alguns deles foram sofrendo com doenças e morrendo.

Em 2013, num intervalo de quatro meses, três felinos (um tigre, um leão e uma jaguatirica) morreram de forma misteriosa. Segundo laudo apresentado pelo biólogo do Parque Rodrigo Xavier, o tigre Zetti morreu por causa de problemas renais, os outros dois animais (o leão Zulu e a jaguatirica macho Lippy) chegaram a óbito por já estarem velhos.

“Na verdade isso é oportuno. Nosso plantel é senil, os animais já são bem velhinhos. Eles falecem e não são repostos”, defende.

O “Zoológico da Morte” (nome dado em alusão ao zoológico de Surabaya, na Indonésia, que também vem sofrendo com seguidos casos de mortes de animais, no último ano) vem sendo alvo de denúncias dos frequentadores, e críticas por parte da mídia. A Revista Veja SP e o Portal G1 publicaram reportagens sobre a crise que vive o parque, a falta de alimentos para os animais e a má conservação das instalações. O biólogo rebate, contrariando as publicações: “O parque está passando por reformas, irá passar por adequações. Nós temos problemas estruturais, mas não tem crise nenhuma.”

A situação atual do parque é realmente lamentável, a equipe de reportagem visitou o local e constatou que zoológico necessita de reformas e que atualmente não tem condição de abrigar animais silvestres, e de grande porte. 

A situação estrutural é ruim: jaulas remendadas, limpeza e manutenção precárias, área social para receber excursões escolares depredados. A imagem que o parque transmite aos visitantes é de abandono.







A equipe conversou com um funcionário que não quis ser identificado com medo de perder o emprego. O mesmo nos relatou que os animais não são maltratados e nos mostrou um vídeo onde ele fazia carinho e interagia com a leoa Helga – o único felino de grande porte ainda vivo no parque. E desabafou:

Jaulas vazias e com péssimas condições, mostra o cenário de abandono no parque.

“Existem alguns movimentos que querem que estes animais sejam transferidos para ONGs, eu não acho justo. Estamos falando de animais senis, que têm hábitos alimentares e comportamentais que só nós conhecemos. Estes movimentos querem tirar os animais daqui, mais se isto acontecer estes bichos irão morrer”.

De acordo com Xavier, o projeto para reforma do parque está em fase de aprovação, desde o início do ano, após a série de denúncias dadas pela mídia. Depois de encerrada esta fase, a prefeitura de Taboão da Serra tem o prazo de 24 meses para executar a reforma.


Placas indicando que o parque passa por reformas


Ambientalistas protestam contra a Prefeitura

Em contrapartida, o movimento “Salve Parque das Hortênsias”, formado por moradores do bairro, afirma que o abandono do zoológico é oportuno para a administração atual e relata que a postura se deve a uma possível especulação imobiliária para o terreno onde atualmente funciona o Parque.

Um morador engajado na causa para salvar o Parque, que não quis se identificar que com medo de represálias, diz que os habitantes de Taboão da Serra, e mais um grupo de ativistas têm o conhecimento de que a prefeitura quer despachar os animais do Parque das Hortênsias para outros zoos ou ONGs, para que o terreno seja desocupado para a construção de empreendimentos imobiliários.

O movimento criou uma página na rede social Facebook, (https://m.facebook.com/profile.php?id=271399042995217) para divulgar informações sobre os protestos que são realizados pelos ativistas e protetores da causa animal, além de publicarem algumas fotos sobre as condições dos bichos que ali vivem.


Página do Facebook revela denúncias contra a Prefeitura de Taboão da Serra, apontando os problemas no parque.

O administrador da página do movimento “Salve o Parque das Hortênsias”, que também não quis se identificar com medo de represálias, e que aceitou ceder uma entrevista via chat do Facebook, destaca também sobre a questão da especulação imobiliária como ponto importante na discussão da manutenção do espaço:

 “O zoológico já foi muito bem administrado com os máximos de cuidado possíveis, já hoje o prefeito Fernando Fernandes quer acabar com o zoológico, mas de forma inesperada (...) ele quer que os animais morram por motivo de descuidado com os animais, ou seja, até não sobrar um animal, arranjar uma desculpa e fazer suas intenções imobiliárias lá.” Além disso, o escritor da página nos conta que nenhum documento sobre a transferência dos animais para outros zoológicos ou ONGs foi apresentado à população.

Diante das denuncias de descaso e abondo do Parque das Hortênsias, o deputado Ricardo Tripoli, coordenador do Grupo de Trabalho de Fauna da Frente Parlamentar Ambientalista do Congresso Nacional, visitou o local, no dia 16 de janeiro deste ano, e deu a seguinte declaração:

[...] Como Deputado Federal, nosso papel é fiscalizar, nos fazermos presentes e atentos e obter um compromisso político do município, em adequar os espaços e salvaguardar os animais, para dar respaldo às reivindicações do Movimento de Proteção Animal. Percebemos também que coibir a intervenção dos visitantes e o incômodo causado em função de qualquer comportamento, como gritos, arremesso de objetos, etc, faz-se necessário e deve ser agregado à lista de correções a serem estudadas e viabilizadas, e que comporão o relatório técnico que esta sendo elaborado. [...] Sentimos que o Município está preocupado com a repercussão negativa do episódio. É o momento de exigir e auxiliar tecnicamente modificações na forma de condução de manutenção do local, se isto for considerado possível. O vice-prefeito, atual Secretário de Turismo e responsável pelo Parque, como foi recém-empossado na função, ainda está se inteirando dos problemas, todavia intenciona realizar uma consulta pública para discutir a vocação do Parque. [...]

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Taboão da Serra, em 4 de abril, para que algum responsável se pronunciasse sobre o caso. Fomos atendidos pela assessora de imprensa do vice-prefeito do município, Vera Rodrigues, que solicitou um e-mail com a pauta para que fosse agendada a entrevista com secretário de cultura, mas até a data que foi proposta a realização de uma entrevista, não tivemos resposta.


ONDE FICA
SERVIÇOS
SOBRE O FUNDADOR DO PARQUE
O Parque das Hortênsias está localizado na Praça Prefeito Oswaldo Cesário de Oliveira, 500, Parque Assunção, Taboão da Serra. Próximo à Prefeitura Municipal. Fone: (11) 4787-3791.
O zoológico fica disponível para visitação de segunda á domingo, inclusive nos feriados, das 9h às 16h30. Entrada gratuita e com estacionamento (também gratuito), para aproximadamente 100 veículos. 
Para chegar até o zoo de ônibus, existem cinco linhas circulares pela cidade e partindo do Parque até o Metrô Campo Limpo.
Armando Andrade, dirigiu a cidade de Taboão da Serra em dois mandatos (1977-1981 e 1989-1992), e mantinha um blog no portal “O Taboanense”, contando histórias da cidade, inclusive denunciando a situação atual do parque. Lutou desde 2004 contra um câncer no abdômen, falecendo em março de 2013, aos 73 anos. Seu corpo foi cremado e as cinzas depositadas no Parque das Hortênsias.

*Colaboraram nesta reportagem: Geane Corseiro, Natalia Teles, Marcus Vinícius Garcia, Bruna Farias e Pethalla Karime Brito. Fotos: Marcus Vinícius Garcia

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